Protegendo a Mata Atlântica

Em 1500, quando os Portugueses chegaram à costa brasileira, a Mata Atlântica cobria 1,5 milhões Km2. Com os primeiros colonizadores começou a retirada da floresta para agricultura e extração de madeira. No início do século XIX mais um ciclo de destruição da floresta teve impulso com a cafeicultura no Nordeste do RJ. A técnica de derrubada de floresta e queima era muito utilizada e causava enorme destruição de habitats. Outra atividade que teve fortíssimo impacto no desmatamento foi a criação de gado livre – sem recurso a ração – que exige enormes áreas de pasto, obtidas à custa da derrubada de florestas, e queimadas anuais que vão esterilizando o solo; atualmente, muitas das propriedades da região são fazendas de gado bovino. Agora, no início do século XXI restam apenas 7% da área original de Mata Atlântica dos quais 2% apenas são florestas intocadas. Mundialmente á o segundo bioma mais ameaçado ficando atrás apenas de Madagascar.

Com o aumento da população do Rio de Janeiro de 200 mil em 1900 para 10 milhões em 2000, problemas de saúde pública fizeram o Presidente Getúlio Vargas drenar os alagados no entorno da Baía de Guanabara, com máquinas importadas dos EUA, para erradicar a malária, a febre amarela e outras doenças. Além do mais, a demanda por comida resultou na expansão das plantações de banana nas encostas dos morros do Rio de Janeiro por volta de 1950.

Acredita-se que o período em que a destruição foi mais intensa, foi depois dos anos 50, quando o Brasil começou a se industrializar mais rapidamente. Teoricamente, a destruição deveria ter cessado em 1986, depois de uma lei ter sido aprovada proibindo novas derrubadas em áreas de Mata Atlântica. O governo também criou o IBAMA como órgão responsável por fiscalização. De qualquer maneira essas medidas vieram tarde para muitas espécies de animais e aves de grande porte, que requerem grandes áreas contínuas e protegidas de floresta para sua sobrevivência.

Os proprietários rurais mais esclarecidos da bacia do rio Guapiaçu resistiram à retirada total da floresta de suas propriedades e o terreno íngreme certamente os auxiliou nessa tarefa. Mais tarde muitos deles permitiram que a vegetação nativa voltasse em diversos locais. O objetivo da REGUA é proteger esses remanescentes florestais, restaurar áreas degradadas, formando corredores entre os fragmentos florestais e a floresta.

Ameaças para a Mata Atlântica

Hoje em dia 120 milhões de pessoas vivem na região outrora ocupada pela Mata Atlântica, principalmente nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

Cachoeiras de Macacu está a uma hora e meia do Rio de Janeiro, é o terceiro maior município do estado com uma área de 957 km2. Sua população de cerca de 48.600 pessoas está dividida em três distritos: Cachoeiras de Macacu, Papucaia e Guapiaçú. Em todos eles ocorrem desmatamentos e extração de madeira; embora 45% da área do município tenha cobertura florestal boa, parte dessa área é de vegetação secundária. Antes da chegada da cervejaria Schincariol, a agropecuária era a principal atividade econômica no município com criações de gado e produção de milho, mandioca, batata doce e quiabo. Recentemente a extração de água mineral se tornou uma das atividades econômicas importantes da região.

Guapiaçú é o distrito menos povoado da municipalidade e conta com cinco localidades, Guapiaçú (600 moradores), Matumbo (500 moradores), Estreito (400 moradores), Santo Amaro (300 moradores) e Boa Sorte (300 moradores). No distrito existem duas grandes indústrias de extração de água e mais três estão em planejamento. No entanto, a agropecuária ainda domina a paisagem. O uso de inseticida vem crescendo à medida que a agricultura praticada nas terras baixas vem se tornando mais mecanizada e intensiva.

Ameaças correntes

Desde 1986 a Mata Atlântica está protegida por lei pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e o recém criado Parque Estadual dos Três Picos têm certamente contribuído para a preservação da vertente ocidental do vale do rio Guapiaçu. Na verdade, os fiscais do IBAMA e do Parque Estadual têm áreas imensas para patrulhar e recursos limitados à sua disposição, de maneira que ameaças ao ambiente e sua floresta ainda estão presentes.

Derrubada de florestas

Enormes derrubadas de floresta não ocorrem mais, mas derrubadas localizadas para aumentar campos agriculturáveis ainda continuam. Em algumas áreas a floresta foi destruída devido à remoção do sub-bosque pelo gado e subseqüente morte das árvores de maior porte. Em outras, o manejo inadequado de terrenos íngremes sujeitos a precipitação intensa causou erosão e deslizamento de encostas, que são um desafio para qualquer plano de recuperação de habitats.

Urbanização

Numa área densamente povoada, como o leste da baía de Guanabara e seu entorno, sempre haverá pressão devido à expansão da urbanização e alteração na cobertura do solo. Uma das principais ameaças no vale do rio Guapiaçu é o aumento das pequenas casas de veraneio. Cada casa acaba estendendo sua área pela floresta e abrindo clareiras para produção de banana e outras culturas. Parece não haver controle deste processo mesmo dentro do Parque Estadual dos Três Picos. Numa escala muito maior, no ano de 2000 uma facção do movimento sem terra invadiu uma fazenda de 1000 ha próxima a Cachoeiras de Macacu e começaram a abrir clareiras para plantar e formar pastos. A chegada de invasores sem terra no vale do Guapiaçu seria desastrosa, se vier a ocorrer.

Demanda por água

Embora o nível de água do rio Guapiaçu tenha diminuído ao longo dos últimos anos ainda existe água de ótima qualidade e em abundância. Já existem duas engarrafadoras de água no distrito e mais três estão em planejamento. De qualquer maneira o aumento da demanda de água no Rio de janeiro pode causar o aparecimento de mais extratoras de água no vale. Extração ilegal de areia do leito do rio é outro risco para a biodiversidade, especialmente entre os peixes que necessitam do leito arenoso raso para reproduzirem.

Caça

Apesar de ser ilegal, a caça tem sido uma atividade tradicional nas comunidades locais. Se a REGUA almeja proteger a vida selvagem e tornar o local seguro para visitantes e pesquisadores, a caça deve cessar. O emprego de caçadores experientes da comunidade como rangers foi uma boa idéia, mas pode ter feito com que os outros caçadores se deslocassem para as áreas de floresta adjacentes à reserva. Atualmente os rangers raramente encontram caçadores dentro da reserva, mas cada nova área de reserva adquirida tem de ser vistoriada para armadilhas e acampamentos de caça. Manutenção de aves em gaiolas é outro hábito nas comunidades, as pessoas têm principalmente papagaios e periquitos, tico – ticos, canários e arapongas.

Compra de terras

A REGUA possui atualmente 3.760 há, além de mais 3.300 ha graças a um acordo com proprietários locais. Isso totaliza 7.000 ha, dos quais 2.500 ha são fruto de um acordo com a empresa Schincariol que possui essa enorme área de floresta preservada no coração da reserva. A Schincariol construiu um reservatório próximo à encosta da serra. A água deste reservatório é usada para a fabricação de cerveja numa fábrica instalada próximo a Cachoeiras de Macacu. Para manter a qualidade da água é necessário proteger as nascentes, por isso conservar a floresta que protege essas nascentes é essencial para as operações da Schincariol.

O objetivo da REGUA é proteger a Mata Atlântica na bacia do alto rio Guapiaçü. Para isso temos que expandir a área protegida por meio de compra de terras e acordos. A maior parte dos recursos para a compra de terras vem da Europa e da América do Norte. Neste sentido, é importante destacar que as compras de terra são feitas em nome da REGUA, portanto a propriedade é de brasileiros e o manejo destas áreas é feito em benefício das comunidades locais.

A compra de terras, especialmente de lotes pequenos sujeitos a interesses conflitantes por parte dos proprietários, é um processo moroso e muitas vezes títulos de propriedade simplesmente não existem. O preço por hectare varia muito em função do acesso, capacidade produtiva e potencial para exploração de água mineral. Ironicamente, a proteção da bacia do alto Guapiaçü está melhorando as condições de vida localmente e isso tem atraído pessoas da cidade, que eventualmente constroem casas de veraneio.

Algumas áreas que almejamos adquirir se encontram dentro dos limites do Parque Estadual dos Três Picos, criado em 2002. Isso pode parecer estranho, mas os proprietários não receberam qualquer indenização pela desapropriação de suas terras e faltam recursos para fiscalizar adequadamente toda a extensão do parque. Além do mais, a REGUA como proprietária é uma barreira mais eficaz do que um órgão governamental ou um proprietário ausente para combater a ocupação ilegal. A REGUA é um dos membros do conselho diretivo do Parque Estadual dos Três Picos e nossa estratégia de compra de terras para preservação é encorajada como uma maneira efetiva de proteçção e manejo no longo prazo.

Guarda-Parques

O patrulhamento regular da reserva é essencial para prevenir a caça, coleta de palmito e de bromélias e orquídeas. Embora os guarda-parques (rangers) não tenham nenhum respaldo legal, eles andam uniformizados e já são reconhecidos e respeitados pela comunidade. Quando encontram caçadores estes são aconselhados a se retirarem da área e acampamentos e armadilhas encontrados são sumariamente destruídos. Foi estimado que a caça foi reduzida em aproximadamente 98% em relação a 2001.

Todos os nove Rangers são de comunidades locais como Guapiaçú e Matumbo, alguns deles foram caçadores, por isso conhecem as técnicas utilizadas e a melhor maneira de combatê-las. Eles conseguem identificar rastros e marcas deixados por animais e conhecem pessoalmente muitos dos caçadores.

Para tornar seu trabalho mais eficiente, e permitir o acesso de visitantes na floresta, os guarda-parques abriram uma rede de trilhas com marcações que indicam a trilha e a distância percorrida em metros. Um dos Rangers, Adilei mostrou ser um guia de aves excepcional e atualmente tem guiado observadores de aves pelas trilhas.

Para identificar futuros rangers e encorajar o interesse pelo meio ambiente a REGUA iniciou um programa de educação ambiental chamado "Jovens guardas" por meio do qual os adolescentes de escolas locais têm oportunidade de acompanhar os rangers e conhecer seu trabalho.