Olhos no céu: Drones sobem às copas da Mata Atlântica para descobrir como as plantas vão enfrentar as mudanças climáticas
Pesquisa científica acompanha, por três anos, orquídeas, bromélias e outras epífitas na REGUA e em reservas vizinhas do Rio de Janeiro.
Orquídeas, bromélias e outras plantas que vivem sobre as árvores da Mata Atlântica estão sendo fotografadas por drones, metro a metro, em três áreas protegidas: a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), o Parque Estadual dos Três Picos e a RPPN Alto da Figueira, nos municípios vizinhos de Nova Friburgo e Cachoeiras de Macacu. O objetivo é prever como a biodiversidade da Mata Atlântica vai reagir ao aquecimento do clima.
Plantas que vivem nas árvores, um termômetro da floresta
As epífitas são plantas que crescem sobre outras plantas, usando a árvore apenas como apoio, sem prejudicá-la. Orquídeas e bromélias são os exemplos mais conhecidos. Elas ocupam desde o tronco, perto do chão, até a copa, onde há mais sol e menos umidade, e são muito sensíveis a mudanças de temperatura e de umidade.
A pesquisa, intitulada Biodiversity dynamics along environmental gradients under impending environmental change ("Dinâmica da biodiversidade ao longo de gradientes ambientais sob mudanças ambientais iminentes"), do pesquisador Zachary Chu da Universidade de Birmingham quer entender como essas comunidades variam com a altitude e com a altura na árvore. As três áreas estudadas cobrem altitudes de 400 a 1.600 metros, o que permite comparar climas diferentes numa mesma região da Mata Atlântica.

Como o estudo é feito
Escolha das árvores: árvores grandes, com muitas epífitas, são marcadas em várias altitudes.
Fotos com drone: o equipamento sobe ao longo de cada árvore e fotografa as plantas a cada 1 metro. As espécies são identificadas depois, nas imagens, com a altura anotada.
Retorno todos os anos: as mesmas árvores são fotografadas de novo. Comparando as imagens, os pesquisadores veem quem sobreviveu, cresceu, se reproduziu, morreu ou é novo na árvore.
Medição do ambiente: sensores de temperatura, umidade e luz são instalados em várias alturas, com equipamento de escalada, e um scanner a laser (LiDAR) mapeia a estrutura das árvores em 3D.
Coleta mínima: só quando há dúvida sobre a espécie, e de preferência plantas caídas, que viram amostras de herbário ou são cultivadas em instituições parceiras.
Por que a Mata Atlântica precisa desse olhar
A Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos em espécies e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados do planeta, considerado um hotspot mundial de biodiversidade. Boa parte dessa riqueza vive nas copas das árvores, justamente onde o clima muda mais rápido e onde a ciência chega com mais dificuldade. Entender as epífitas é entender a saúde da floresta inteira: elas guardam água, abrigam insetos, anfíbios e aves e dependem de um clima úmido e estável para sobreviver.

O projeto prevê uma temporada de campo por ano, sempre de início de agosto a final de setembro. Em cada uma, a equipe começa na REGUA, por uma ou duas semanas, e passa o restante do tempo entre o Parque Estadual dos Três Picos e a RPPN Alto da Figueira, com base na estação de campo do Projeto Araçá. Depois, volta à Europa para processar os dados.
A Mata Atlântica cobria originalmente mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados (cerca de 15% do território brasileiro), estendendo-se por 17 estados na faixa litorânea e interior do país. Hoje restam cerca de 12,4% a 24% da vegetação original, dependendo do critério de medição (fragmentos florestais gerais ou vegetação secundária e áreas menores). A maior parte do que sobrou encontra-se em pequenos fragmentos isolados, principalmente na região da Serra do Mar.
Na REGUA cerca de 57 espécies de epífitas já foram catalogadas na lista florística do plano de manejo da instituição. "Com certeza essa contribuição vai muito além de um estudo com impacto local. Essa pesquisa e seus resultados reverberarão durante muito tempo e com intensidade no meio científico e acadêmico." comentou o pesquisador e coordenador de pesquisas da REGUA, Jorge Bizarro
Primeiros resultados: o que os drones já revelaram
O método já mostrou que funciona. Um estudo do pesquisador Zach, intitulado Eye in the sky: using drones to assess canopy diversity for vascular epiphytes in the Brazilian Atlantic Forest ("Olho no céu: usando drones para avaliar a diversidade do dossel de epífitas vasculares na Mata Atlântica brasileira"), compara a altitude e a altura na árvore como fatores da diversidade de plantas.

Segundo o estudo, as florestas de baixada têm potencial para abrigar muitas espécies de epífitas, por combinarem muita superfície para as plantas se fixarem e umidade local elevada. Os autores também destacam o valor dos drones para entender a diversidade das florestas tropicais, da base à copa das árvores.
O valor da pesquisa está em olhar para o futuro a partir do presente. Como o clima já varia com a altitude e com a altura na árvore, os cientistas podem observar hoje como as plantas vivem em cada condição e estimar o que acontecerá com elas se o clima de um lugar passar a se parecer com o de outro.
Para a REGUA, receber a pesquisa reforça o papel das reservas privadas e das unidades de conservação como laboratórios a céu aberto da ciência brasileira. Esta pesquisa está em andamento, seus resultados serão divulgados com o tempo por Zachary Chu e demais colaboradores.
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